Os que dizem hoje "We are all Sérgio Moro" (what the hell is this???) diziam, nos protestos de 2015, "Somos milhões de Cunhas". Eu é que não me misturo com essa gente...
Se o motivo fosse o combate à corrupção, de verdade, estariam pedindo investigação contra o roubo da merenda escolar em SP, o escândalo do Metrô/Trensalão Tucano, o HeliCoca e os aeroportos construídos com recursos públicos em propriedades privadas da família de Aécio, o apartamento de Paris de FHC, o triplex de Paraty e os crimes de sonegação fiscal, ocultação de patrimônio e de evasão de divisas da Família Marinho/Rede Globo, o Tucansalão de Furnas etc etc etc...#SQN!
Travestidos de bons brasileiros indignados com a corrupção estão defensores da volta do regime militar; contrários a luta por igualdade de direitos entre homens e mulheres; contrários a presença de mulheres no poder; contrários a ascenção dos mais pobres ao mercado de consumo, em virtude de políticas de distribuição de renda; contrários à conquista de direitos trabalhistas por empregadas domésticas; contrários às políticas de ações afirmativas/cotas para negros, pobres e estudantes de escolas públicas; contrários a presença de médicos estrangeiros negros/cubanos no país; a favor da redução da maioridade penal; a favor da manutenção de privilégios de classes em detrimento dos mais pobres… Em síntese, fascistas, racistas, machistas e homofóbicos, coxinhas e direitosos da pior estirpe. Tem gente de boa-fé no meio, bem intencionadas, com certeza. Mas, as companhias depõem contra estes também, assim como nossas más-companhias depuseram e depõem contra nós nesse modelo putrefato de "presidencialismo de coalizão".
Faz tempo que isso tudo que estamos vivendo (crise, protestos, Lava Jato, impeachment) deixou de ser uma questão de combate à corrupção. Trata-se da velha luta de classes, da disputa de interesses. Trata-se de saber quem vai pagar a conta do déficit fiscal, de qual tese, qual visão de mundo prevalecerá em um momento de crise, recessão e escassez.
Quando falo em disputa, falo que todos disputam os benefícios do Estado e defendem os seus próprios interesses: o funcionalismo público, que quer aumentos; o judiciário, que quer benefícios para seus membros que outros profissionais não tem; os parlamentares, que, além do salário, contam com gordas verbas; a população mais carente e hipossuficiente, que luta por cada vez mais recursos para os programas sociais; os empresários, que querem cada vez mais subsídios e isenções de tributos para suas atividades produtivas; os investidores do mercado financeiro e as grandes corporações transnacionais, que não querem ter seus rendimentos ou suas remessas de divisas às suas matrizes no exterior taxadas e tributadas… E por aí vai.
Quando há bonança de recursos, mesmo com desigualdade, tudo se acomoda, dá para contemplar os interesses de todos, e todos ficam, relativamente, felizes e satisfeitos. Quando há escassez, como agora, dá briga. É a tal disputa. A crise atual é, portanto, muito mais de disputa em face da relativa escassez, e menos de corrupção.
E, nessa disputa, prosperará a tese dos poderosos, da grande mídia, em detrimento da mídia alternativa; do grande capital financeiro especulativo e dos mega empresários em detrimento dos micro e pequenos comerciantes e industriais; dos grandes latifundiários e do agronegócio em detrimento do pequeno produtor rural da agricultura familiar; qual seja: um ajuste fiscal ortodoxo, com aumento da tributação indireta (que afeta aos mais pobres, ao invés de aumento da tributação direta, que afeta aos mais ricos), redução dos investimentos sociais e controle da inflação, com altas taxas de juros e relativa desvalorização da moeda. A mesma receita falida que deixou a maior parte da população do país na bosta, durante séculos e que retorna com força total agora. Sempre mais do mesmo...

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